Como contar aos seus filhos que se vai divorciar

O divorcio e as criançasJá foi ao advogado. Já avisou o seu cônjuge. Num cenário ideal, você e o seu cônjuge combinaram quando e como dizer aos vossos filhos. No melhor dos cenários, vocês concordaram em colocar os vossos sentimentos de lado e dizer aos vossos filhos em conjunto. Marcaram uma data em que toda a gente vai ter tempo para pensar e falar sobre isso, ser confortado e tranquilizado se for caso disso. Essa vai ser uma grande mudança.

Se o seu cônjuge não estive a cooperar, você terá de cooperar mais para compensar. Provavelmente já teve de fazer essa compensação em muitos outros casos, mas os seus filhos valem esse esforço. São dois os comportamentos que mais magoam os filhos num processo de divórcio: quando um dos pais, ou os dois, se envolvem com outra pessoa demasiado cedo, ou quando um deles, ou novamente os dois, quer deter o poder e o controlo. Você não pode controlar o que o outro faz, mas pode controlar a sua reação em relação a isso. A forma como o faz pode fazer toda a diferença para os seus filhos.

O seu papel enquanto progenitor é fazer tudo o que estiver ao seu alcance para tonar essa mudança o mais fácil possível para os seus filhos. Faça sacrifícios para que eles não tenham que fazer sacrifícios. As crianças são as verdadeiras vítimas dos maus casamentos. Elas não fizeram más escolhas porque nem tiveram escolha. O pior que você pode fazer é despejar a eminência do divórcio em cima deles a meio de uma semana escolar

Se o divórcio o assustou porque não sabia com o que contar, coloque-se no lugar dos seus filhos. Sente-se com eles e abrace-os, se eles permitirem. A forma como o diz vai depender da idade dos seus filhos. Esteja preparado para reações de raiva, choro, gritos e corações partidos, e lide com isso com amor, paciência e compreensão. Deixe-os exprimir aquilo que sentem, mas não tolere comportamentos abusivos. Você sabe o que isso é. Todos os sentimentos são normais. Eles vão ultrapassar a situação se você não os forçar a reprimir sentimentos. É surpreendente o número de crianças que lida bem com a situação, especialmente aquelas que estão cansadas das discussões.

Você pode dizer algo como, “O amor que um pai tem pelo filho, o amor que eu tenho por ti, é diferente do amor que duas pessoas sentem quando se casam. É muito mais forte e profundo. Os pais amam os filhos mesmo antes de os verem, e esse sentimento nunca desaparece nem diminui.

Quando duas pessoas pensam que se amam o suficiente para casar, por vezes o que sentem não é realmente amor. Depois de estarem casados algum tempo, eles dão-se conta que são muito infelizes. Foi isso que aconteceu com o teu pai/mãe e comigo. Nós os dois gostamos de ti e vamos sempre gostar de ti independentemente de tudo, mas já não gostamos um do outro o suficiente para viver juntos. Nós confundimos o amor com outro sentimento e construímos um mau casamento quando éramos novos e insensatos. Nós tentámos ser felizes e fazer o casamento funcionar, e por isso por vezes parecíamos felizes, mas lá no fundo estávamos muito infelizes. Nós não queremos discutir mais. Não queremos mais fazer o outro infeliz. Nós não queremos que vivas mais no meio de toda esta tensão e no meio das más escolhas que nós fizemos.

Nós os dois queremos passar todo o tempo que pudermos contigo, e por isso vamos cooperar um com o outro e certificar-nos que tu estás onde queres estar, a fazer o que queres fazer, e vamos estar lá para ti sempre que tu quiseres, a dar-te força.”

É nesta altura que vocês devem referir os planos que fizeram em relação ao sítio onde vão morar e à forma como essa transição pode ser conseguida através do carinho. Ouça as perguntas dele e considere as sugestões que eles fizerem como se elas fossem tão importantes e inteligentes como as de qualquer outra pessoa, isto porque são. Isso vai faze-los sentir menos impotentes. Além disso, eles podem ter ideias fantásticas. Todos vocês vão lucrar com essa conversa.

Eles podem não saber como dizer aos amigos. Lembre-lhes quantos amigos eles têm com pais divorciados. Realce a velocidade com que as pessoas perdem interesse no que se passa na vida dos outros, especialmente em relação a divórcios. A maioria das pessoas vai passar por um período em que vão ser o centro das atenções durante mais de um minuto ou dois. Deixe o tempo passar. Seja paciente.

Sara Santos é Licenciada em Direito pela UAL - Universidade Autónoma de Lisboa. Tem como base a sua profissão jurídica e é especializada em matérias relacionadas com a família e em como o divórcio pode afetar a vida da família. Também escreve sobre assuntos mais mundanos que cercam a vida de casado/a.

Publicado em Divórcio

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